Apenas algumas horas após nossa chegada na Coréia do Norte já tínhamos uma certeza: essa seria sem dúvidas a viagem mais surreal de nossas vidas. Pra início de conversa, nossos passaportes foram de cara apreendidos. “Não se preocupem com isso.” nos disse nosso guia como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Mas confesso que, pra alguém que já perdeu o passaporte em viagem pela Espanha, o governo norte-coreano provavelmente é mais indicado para guardar meus documentos do que eu mesmo. Algumas regras também nos foram colocadas antes mesmo de nossa primeira noite: filmagem só com autorização e se quiséssemos sair por conta própria pela rua não deveríamos ultrapassar uma cerca que ficava a poucos metros do hotel. Mas ao mesmo tempo que estas normas ultra-rígidas nos eram apresentadas, íamos percebendo mais uma vez aquele clichê máximo que nos acompanha por essas viagens por destinos inusitados: no fundo somos todos iguais. Com uma certa dose de simpatia, jogo-de-cintura e muita cara de pau rapidamente íamos ganhando a confiança de nossos guias, que seriam nossos embaixadores particulares nessa inusitada república comunista. Pouco a pouco conseguíamos ampliar a zona liberada para filmagem e não só conseguíamos tirar muitas dúvidas com eles como eles mesmos passaram a se soltar conosco inclusive começando a colocar para gente as suas questões. Suas respostas e perguntas davam a medida do quão incrivelmente isolado é o seu país. As histórias inacreditáveis e as versões distorcidas não soavam como má-intenção, lavagem cerebral ou medo de repressão, eles simplesmente vivem em uma bolha socialista. Um país imerso em uma espécie de universo paralelo em algum lugar no passado. Entre paradas em dezenas de monumentos e instituiçoes públicas em homenagem ao “grande líder” e conversas dentro de nosso tour bus exclusivo, ganham destaque o Arirang Mass GAmes, com suas coreografias e mosaicos que facilmente lhe dão o título de maior espetáculo da terra, e nossa visita a DMZ, a zona desmilitarizada na divisa entre as duas Coréias. Dá para cortar a tensão no ar com uma faca! Quando visitamos a sala onde foi assinado o armistício EUA x Coréia, tamanha era a intimidação que quando o oficial nos ofereceu um assento na mesa onde foi assinado o tratado os 3 logo pularam para se sentar do lado coreano. Mas o que faz da Coréia do Norte uma experiência totalmente singular e incomparável é justamente a forma como eles lidam com turismo e conosco, os “turistas”. Exemplos: o amplo salão de café da manhã para centenas de pessoas mas que todo dia só atendia a nós três (e sempre com um staff de pelo menos umas 10 pessoas), o fato de jamais entrarmos nos eventos pela entrada comum ou junto do povo sendo sempre escoltados sem escalas até os assentos VIP e de lá retirados direto de volta ao ônibus, os almoços de mais de 5 pratos e que sempre nos obrigam a dizer “More than enough, thank you.”, as crianças perfeitamente ensaiadas que nos aguardavam com uma apresentação musical a cada sala que entrávamos “por acaso” em um passeio por uma escola… e o próprio fato de esbarrarmos sempre com os mesmos poucos turistas e seus guias, que deviam estar fazendo o mesmo circuito que o nosso com algumas horas (ou minutos) de diferença.
Pra quem nunca viajou de excursão, a impressão que ficou foi a de fazer parte de um grupo da Stella Barros pela Disneylândia da Ásia comunista.
Amanhã ainda há tempo para mais umas voltas antes de pegarmos nosso vôo Air China com destinoa Sheniang e de lá de volta a Pequim.
Com certeza, mais surpresas nos aguardam.


